A trajetória artística de Cristina Cruz é marcada por pausas, silêncios e, sobretudo, pela permanência do desejo de criar. Moradora de Ribeirão Pires desde 2003, Cristina iniciou sua formação artística nos anos 1980, ao ingressar na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, onde cursou bacharelado em Pintura, Gravura e Escultura. Desde então, a arte passou a constituir não apenas um campo de estudo, mas uma forma sensível de compreender o mundo.

Ao ingressar na Belas Artes, Cristina candidatou-se a uma vaga de trabalho na própria instituição, valendo-se de sua experiência anterior em ambientes acadêmicos. Foi contratada para atuar em meio período, passando por diversos setores, secretaria, arquivo, biblioteca, até chegar ao Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Esse trabalho estava vinculado a uma meia bolsa de estudos, o que lhe permitia conciliar, no mesmo espaço, o trabalho pela manhã e a formação artística no período da tarde.

Entretanto, após o casamento, uma série de fatores, entre eles questões de saúde e limitações financeiras, fizeram com que Cristina interrompesse sua trajetória acadêmica e artística. A partir desse momento, sua vida foi dedicada integralmente à família: ao marido e aos três filhos. Embora afastada da produção artística, a arte jamais deixou de acompanhá-la. Em uma época anterior à internet, Cristina buscava referências como podia, assistindo a raros programas sobre arte e artistas, quase sempre exibidos pela TV Cultura. Quando perdidos, não havia reprise nem acesso posterior: era preciso aguardar uma nova oportunidade.

Mesmo nesse período de afastamento, a arte permaneceu viva no cotidiano familiar. Cristina, de maneira sensível e espontânea, influenciou os filhos a se aproximarem do universo artístico. Hoje, essa herança se manifesta de forma concreta: o filho mais velho é músico e professor de música; a filha do meio é professora de artes, com pós-graduação em História da Arte; e a caçula seguiu o caminho da Arquitetura.

Com os filhos já adultos, Cristina reencontrou o tempo e o espaço necessários para olhar novamente para si e para sua produção artística. Participou de cursos e oficinas, retomou projetos antigos e fortaleceu sua identidade criativa. Aos 66 anos, chegou a considerar a possibilidade de desistir, mas reconheceu que a arte não tem idade, e escolheu recomeçar. Hoje, dedica-se a pintar projetos que por anos permaneceram guardados na gaveta, ao mesmo tempo em que novas ideias continuam a surgir.

Nesta exposição, Cristina Cruz apresenta uma poética profundamente conectada à natureza, especialmente às árvores, elementos que, para ela, transmitem força, paz e serenidade. Seu olhar é atento às cores, aos movimentos, às nuances de luz e sombra. Por onde passa, as árvores a convocam ao diálogo. Às vezes, essa conexão acontece num instante; em outras, exige tempo, contemplação e escuta sensível, até que a mensagem se revele.

Cristina não busca retratar as árvores como são, para isso, como ela mesma afirma, existe a fotografia. Sua intenção é expressar aquilo que sente ao observá-las. Por isso, suas árvores não são literais: são interpretações afetivas, carregadas de expressividade e singularidade. Cada uma possui identidade própria, como se revelasse uma alma. Na visão da artista, se fosse possível enxergar o interior das árvores, elas seriam exatamente assim.

Ao compartilhar sua produção, Cristina Cruz afirma não apenas sua trajetória artística, mas também o direito de recomeçar. Sua obra nos lembra que a criação pode amadurecer com o tempo, que a sensibilidade se aprofunda com a experiência e que nunca é tarde para ouvir aquilo que sempre nos chamou, silenciosamente, para criar.

Rafael Marques

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *