Mais do que simples pertencimentos temporários, essas experiências moldam sua percepção de mundo

Nascido em 1987, em São Paulo, e criado em Heliópolis, uma das maiores comunidades urbanas do país, o artista Viva constrói uma trajetória marcada por deslocamentos, experiências populares, travessias culturais e profundas conexões com a natureza. Hoje morando em São Bernardo do Campo, ele carrega em sua produção artística um repertório que atravessa o concreto das cidades, o chão das fábricas, as estradas percorridas a pé e a memória viva da terra.

Sua história começa entre os becos, vielas e movimentos culturais da periferia paulistana, mas ganha novos contornos quando, ainda criança, muda-se para o estado do Piauí. É ali que nasce sua relação mais profunda com a terra, com a natureza e com aquilo que ele define como suas raízes. O contato com os elementos naturais transforma-se, ao longo do tempo, no principal pilar de sua identidade visual e em uma espécie de fundamento filosófico para sua produção artística.

No ano 2000, Viva retorna ao ABC Paulista, estabelecendo-se em São Caetano do Sul. A partir desse período, mergulha em diferentes universos culturais urbanos. Transita entre tribos, estilos e movimentos que marcaram sua formação humana e estética: o skate, o rap, o punk, o reggae e as múltiplas manifestações da cultura de rua.

Mais do que simples pertencimentos temporários, essas experiências moldam sua percepção de mundo. O artista passa a viver intensamente as cidades, os encontros e os deslocamentos. Caminha longas distâncias, atravessa o litoral paulista diversas vezes, vai da região sul à norte do estado a pé, percorre estradas rumo ao sul de Minas Gerais e acumula histórias que mais tarde se transformariam em matéria-prima para sua arte.

Cada travessia amplia sua compreensão sobre o ser humano, sobre os territórios e sobre os contrastes entre natureza e urbanização. Esse olhar atento para as relações humanas e para os caminhos percorridos se tornaria uma das marcas mais presentes em sua obra.

Mas antes do reconhecimento artístico, sua realidade foi a do chão de fábrica. Como muitos trabalhadores do ABC Paulista, Viva viveu a rotina intensa da indústria metalúrgica, operando máquinas e convivendo diariamente com o peso mecânico da produção industrial. No entanto, aquilo que poderia ter se tornado apenas desgaste foi ressignificado.

A experiência fabril não foi apagada de sua trajetória. Pelo contrário: foi transformada em linguagem artística. O artista encontrou na pirogravura, técnica que utiliza o calor para gravar desenhos sobre madeira, a possibilidade de unir sua vivência industrial à organicidade da natureza. O fogo, antes associado ao trabalho mecânico, passa a produzir poesia visual.

Sua relação com o desenho começa ainda no ensino médio, quando passa a preencher folhas inteiras de maneira intuitiva, sem regras rígidas ou planejamentos prévios. Aos poucos, percebe que aqueles traços espontâneos começavam a formar uma identidade própria. Foi também nessa época que recebeu de um amigo um pirógrafo de presente, ferramenta que mudaria definitivamente sua trajetória.

Viva compara aquele momento à descoberta de uma caixa de giz de cera por uma criança: um impulso criativo quase incontrolável. A partir dali toda madeira encontrada pelo caminho transformava-se em suporte artístico. Troncos, pedaços descartados e superfícies esquecidas passavam a ganhar novos significados através do fogo e do desenho.

Em 2012, realiza sua primeira exposição na Estação Jovem. O evento marca oficialmente sua entrada no circuito artístico independente do ABC Paulista. Pouco tempo depois, começa a frequentar saraus, levando suas obras para espaços culturais periféricos e ampliando o diálogo entre arte visual e manifestações populares.

No ano seguinte, em 2013, inicia exposições na Avenida Paulista, um dos maiores centros culturais e urbanos do país. A experiência se torna decisiva. Em meio à circulação intensa de pessoas de diversas nacionalidades, seu trabalho passa a alcançar novos públicos e desperta conexões profundas com observadores que se identificavam com sua estética orgânica, intuitiva e ancestral.

Com o crescimento de sua visibilidade, Viva passa a integrar importantes feiras e exposições coletivas, como a Feira Plana, realizada no Museu da Imagem e do Som (MIS), além do Festival Órbita e da exposição Coleta ABC. Esses espaços consolidam sua presença na cena artística contemporânea independente e fortalecem sua pesquisa visual baseada na relação entre humanidade, natureza e memória.

Toda essa trajetória culmina em um momento emblemático no ano de 2023, quando seu trabalho alcança reconhecimento internacional através de uma exposição no Carrousel du Louvre, em Paris. O artista que um dia percorreu estradas a pé, recolheu madeiras descartadas e transformou vivências operárias em arte chega a um dos espaços culturais mais simbólicos do mundo.

Mesmo diante desse reconhecimento, Viva continua se definindo como uma “alma itinerante”. Ao longo dos anos, vive experiências marcantes em cidades como Pirenópolis e Brasília. Porém, em setembro de 2025, o magnetismo do ABC Paulista o traz novamente de volta para sua região de origem.

Já em abril de 2026, participa da exposição “102 Janelas para Ver o Mundo”, realizada no Ateliê Casarão. Atualmente, também integra a exposição “Expressões”, promovida pelo Coletivo de Artistas de Ribeirão Pires, reafirmando sua presença ativa na cena cultural da região.

Hoje, seu trabalho segue sendo desenvolvido principalmente através da pirogravura, mas também dialoga com outras linguagens artísticas. Sua produção permanece profundamente intuitiva, construída sem esboços rígidos e guiada por sentimentos, conversas, músicas, encontros e pela observação da vida cotidiana.

Para Viva, as pessoas são poesia. Ouvir histórias, compreender trajetórias humanas e enxergar a essência dos indivíduos, para além do que possuem ou representam socialmente, é parte fundamental de seu processo criativo.

Sua obra também nasce como crítica ao distanciamento do homem contemporâneo em relação à natureza e à própria essência humana. Em tempos de excesso de concreto, velocidade e desconexão emocional, sua arte surge como provocação visual e espiritual. Um convite para que as pessoas parem, observem e recordem suas raízes.

Mais do que produzir imagens, Viva busca provocar reencontros. Entre o homem e a terra. Entre o urbano e o ancestral. Entre a rigidez do mundo moderno e aquilo que ainda insiste em florescer dentro de cada ser humano.

E talvez seja justamente nisso que reside a força de sua arte: na capacidade de transformar fogo em memória, madeira em linguagem e existência em poesia visual.

Texto / Foto: Rafael Marques

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