Mathias: entre a filosofia, a história da arte e a pintura, uma trajetória movida pelo prazer de criar

Uma vida dedicada à arte, à filosofia e ao conhecimento

Para alguns artistas, a pintura é uma profissão. Para Mathias de Abreu Lima Filho, ela sempre foi uma companheira de vida. Psicólogo, mestre em Filosofia pela PUC-SP, professor de Filosofia e História da Arte, escritor e tradutor, Mathias construiu uma trajetória em que o conhecimento e a criação artística caminham lado a lado, sem jamais perder de vista aquilo que considera essencial: o prazer de pintar.

Seu primeiro contato com a arte aconteceu ainda na infância, dentro da própria família. A avó, pintora, foi a grande responsável por despertar sua sensibilidade artística. Durante o período da faculdade, Mathias chegou a morar com ela, convivendo de perto com o cotidiano da pintura e das conversas sobre arte. Ela havia sido aluna do renomado pintor italiano Antônio Rocco, artista com obras presentes na Pinacoteca de São Paulo. Além disso, viveu por um período em Ribeirão Pires, onde realizou exposições e deixou algumas telas que, segundo Mathias, integram o acervo da Prefeitura Municipal.

Embora nunca tenha se dedicado exclusivamente às artes plásticas, Mathias afirma que jamais se afastou delas. A pintura sempre esteve presente, assim como a História da Arte, disciplina que leciona há muitos anos. Aos 25 anos, iniciou seus estudos técnicos com o retratista coreano Park Junk Soo e, posteriormente, aprofundou sua formação com mestres como Carmelo Gentil e Alexandre Reider. Outro encontro marcante foi com o artista surrealista Walter Lewy, cuja formação europeia e visão estética despertaram nele um profundo interesse pelo surrealismo.

Ao longo da vida, realizou trabalhos por encomenda, produzindo retratos, desenhos, ilustrações para propaganda e master copies,  reproduções de obras clássicas utilizadas como exercício técnico. Essas experiências contribuíram para o refinamento de seu olhar artístico e para o domínio da pintura. Ainda assim, ele nunca alimentou grandes ambições no mercado das artes.

“Talvez por ter me tornado professor de História da Arte e Filosofia, nunca tive grandes pretensões artísticas. O que sempre prevaleceu foi o prazer de pintar”, resume.

Sua produção passou por diferentes fases. Durante um longo período, esteve profundamente ligado ao surrealismo, movimento que continua admirando até hoje. A influência foi tão significativa que seu filho recebeu o nome René, em homenagem ao pintor belga René Magritte, um dos maiores expoentes dessa corrente artística.

Com o passar dos anos, seu interesse voltou-se também para os aspectos formais da pintura: composição, texturas, cores e formas passaram a ocupar lugar central em seu processo criativo. Atualmente, dedica-se principalmente à produção de retratos, naturezas-mortas, interiores e paisagens, sempre buscando temas que despertem emoção suficiente para serem eternizados sobre a tela.

Seu método de trabalho combina planejamento e sensibilidade. Antes de iniciar uma obra, realiza uma breve pesquisa sobre possíveis temas, elabora um esboço a lápis e, em seguida, transfere a composição para a tela utilizando Vermelho de Óxido Transparente. A partir desse desenho inicial, desenvolve lentamente a pintura, construindo cores, formas e detalhes até alcançar o resultado desejado.

Para Mathias, porém, a arte vai muito além da estética. Em sua visão, ela exerce um papel essencial na sociedade ao conscientizar as pessoas sobre sua realidade histórica e social, ao mesmo tempo em que torna o cotidiano mais sensível, belo e reflexivo. Mesmo quando provoca inquietação, a arte continua cumprindo sua função de despertar novas formas de perceber o mundo.

Essa compreensão é fortalecida por sua atuação como professor, pesquisador e autor de obras como A Escuta, a Espera e o Silêncio, além de traduções de importantes publicações sobre História da Arte. Para ele, conhecer a trajetória dos grandes artistas significa também compreender a história das civilizações, da literatura, das culturas e dos valores humanos.

Em uma época marcada pela velocidade e pela superficialidade, Mathias de Abreu Lima Filho segue cultivando uma relação serena com a pintura. Mais do que produzir obras, ele preserva um olhar atento sobre o mundo, demonstrando que a arte continua sendo uma das formas mais profundas de compreender a existência humana.

Texto / Foto: Rafael Marques @rafael_marx

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