Mas por que chegamos a esse ponto? Por que não se lê mais?
O Brasil lê pouco. Essa afirmação, por si só, já deveria nos causar inquietação. Dados recentes apontam que a média de leitura do brasileiro gira em torno de um livro por ano. Um número extremamente baixo para um país com dimensões continentais, múltiplas culturas e tantas histórias a serem contadas e conhecidas.
Ao mesmo tempo, vivemos um crescimento significativo no tempo de uso de telas. Crianças, jovens e adultos passam horas diante de dispositivos digitais, consumindo, em sua maioria, conteúdos rápidos, fragmentados e, muitas vezes, desprovidos de profundidade. Vídeos curtos, repetitivos e pouco reflexivos ocupam um espaço que poderia ser dedicado à leitura, ao pensamento e à construção de repertório.
Esse cenário tem reflexos evidentes. Observa-se, cada vez mais, a dificuldade de parte da população em interpretar textos simples, compreender informações básicas e produzir pequenos escritos. Não se trata apenas de uma questão educacional, mas de um fenômeno social que impacta diretamente a forma como nos posicionamos no mundo, como argumentamos e como exercemos nossa cidadania.
Mas por que chegamos a esse ponto? Por que não se lê mais? É comum apontar a tecnologia como vilã, mas essa análise é superficial. O problema não está nos livros digitais ou nos recursos tecnológicos em si, mas na forma como temos nos relacionado com eles. A tecnologia poderia, inclusive, ampliar o acesso à leitura, democratizando conteúdos e aproximando leitores de diferentes realidades. No entanto, o que se observa é o predomínio de um consumo passivo e pouco crítico.
Diante desse cenário, surge uma força potente e necessária: o crescimento de escritoras e escritores independentes. São vozes que se levantam para reafirmar a literatura como um direito fundamental do ser humano. Pessoas que escrevem para existir, para resistir, para narrar suas histórias e as histórias de seus povos.
Destaca-se, nesse movimento, a literatura antirracista, que tem contribuído para a construção de uma consciência crítica sobre as relações raciais no Brasil. Também ganha força a literatura indígena, produzida por autores e autoras que utilizam a palavra escrita como ferramenta de resistência, preservação cultural e afirmação identitária. Soma-se a isso a literatura diaspórica, que carrega as marcas das migrações, das rupturas e das reconstruções, dando voz a sujeitos historicamente silenciados.
Essas produções não apenas ampliam o repertório literário do país, mas também reconfiguram o lugar da literatura como espaço de fala, escuta e transformação.
É importante lembrar que a leitura não é apenas um hábito cultural, mas também um processo profundamente ligado ao desenvolvimento cognitivo. Ler estimula as sinapses cerebrais, fortalece conexões neurais, amplia a capacidade de concentração, desenvolve o pensamento crítico e aprimora a linguagem. A leitura nos ensina a pensar, a imaginar, a argumentar e a compreender o outro.
Mais do que isso, a literatura tem o poder de dar voz a quem, por muito tempo, foi silenciado. Ela permite que indivíduos, povos e comunidades contem suas próprias histórias, rompendo com narrativas únicas e hegemônicas. A literatura humaniza, aproxima e transforma.
Diante de tudo isso, a pergunta que fica não é apenas “onde pararemos?”, mas “o que estamos dispostos a fazer para mudar esse cenário?”. Incentivar a leitura, valorizar a literatura e reconhecer sua potência são caminhos urgentes para a construção de uma sociedade mais crítica, sensível e justa.
Texto: Rafael Marques
